sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Quem te ouvir não te leva preso II

Quando era puto dava uma novela por dia. O homem assistia ao telejornal enquanto se jantava e depois seguia para a tasca do Inácio. A mulher lavava a loiça entretanto para logo de seguida se sentar a assistir à novela.
Nesta altura dizia-se qua as mulheres eram quadrilheiras!
O tempo avançou e as pessoas deixaram de estar na mercearia do bairro, deixaram de estar na rua do bairro. O caminho mais longe que se percorre é da porta do automóvel para a porta do prédio. Hoje já nem se conhecem os vizinhos do prédio do lado!
A acompanhar esta novidade, e na necessidade de alimentar as quadrilheiras, inventaram-se vidas através das novelas, e mais novelas, e mais novelas… e o Big Brother!
As pessoas vivem hoje a maior parte do tempo a viver uma vida que não é a sua. Ou é a da televisão ou é a vida virtual!
Por esta altura estarás a fazer scroll down para perceberes se estás no mesmo blog ou se deste um salto para algum universo paralelo.
Estás no sítio do costume, não te preocupes!
Tenho um colega, esse sim, que deu um salto do início dos anos 90 para o presente!
É o típico puto do bairro, cheio de cenário que se vai esvaziando com o passar dos anos, ora pela barriga crescente, ora pelo cabelo minguante. Mas mantem o cenário do puto pintas lá do bairro com o ray ban à la piloto, cabelo na crista da onda, calcinha swell…
Só que o puto do bairro tem algumas questões pendentes. A primeira questão é que estava ocupado a orientar o penteado e esqueceu-se de ir para a fila da atribuição de neurónios. O puto entrou para a empresa quando ainda usava calções mas ainda hoje lhe custa a compreender o básico, e valha-lhe o telefone para que alguém do outro lado o ajude neste percurso tortuoso!
O segundo problema é que parcela do puto, está mesmo nos anos 90. O puto não tem qualquer relação com a internet nem sequer vê telenovelas ou big brother. Em resumo, o puto nem tem vida própria nem se alimenta da televisão nem tem vida virtual.
Então como se alimentam aqueles parcos neurónios?
A alcunha do puto será “um amigo meu…”. 
Este puto, nunca o ouvi falar de rigorosamente nada que tivesse acontecido na vida dele. A história do puto é um livro em branco. Mas tem uma biblioteca imensa de histórias de amigos que recita decor!
Qualquer historia tua que estejas a contar, logo ele intervirá: “epá, sabes lá… tenho um amigo meu que já lhe aconteceu uma cena assim, mas em grande!!!”
Ah, sim, porque é daqueles que a pila tem de ser sempre maior que a dos outros!

Um dia levo este gajo para os copos. Ou passa a ter uma história só dele ou passo a ser mais uma das histórias do cardápio… 


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