Ontem tive uma reunião inesperada. Já estava marcada há
algum tempo, mas fui convocado faltavam três minutos para começar.
A reunião decorreu numa mesa de reuniões, daquelas grandes
que parecem as mesas de refeições dos reis. Para falar de cabeceira a cabeceira
é preciso um megafone ou então, telefonar para a outra ponta.
Basicamente, voltei a estar numa reunião em que todos eram
da mesma área de conhecimento, excepto eu, portanto, imagina que estas sentado
numa mesa em que todos falam mirandês excepto tu. Lá percebes uma palavra ou
outra.
Entraram e começaram todos, como parte de um ritual, a tirar
imensas folhas, cadernos e canetas para cima da mesa.
Eu, com um pequeno bloco e um lápis para o caso de precisar
escrever alguma coisa.
Como não percebi nada durante duas horas, deu-me tempo para
apreciar o comportamento visual.
Ao meu lado um sujeito de cerca de 30 anos. Dois botões abertos
da camisa davam para perceber que não depilava os pelos do peito mas
aparava-os. Depila-los eu compreendo, mas não entendo o conceito “barba de 3
dias” no peito… “ui que rebelde que eu sou, não aparo os pelos do peito há três
dias…”
Ao seu lado, um sujeito anafado e com uns óculos roubados do
fundo de uma garrafa de coca-cola das antigas. Passava o tempo a vangloriar-se
dos trabalhos feitos no passado e vai-não-vai, metia uma palavra em francês.
Lembro-me de ler num livro que isso dava estilo e cultura geral, mas na verdade
pareceu-me idiota até porque era sempre a mesma palavra e a concluir as frases…
Ao seu lado a única mulher presente. Uma mulher que já não é
jovem, mas prontos, era uma mulher. Quando pegava na palavra, para a largar era
complicado. Despertou-me a atenção porque o decote estava todo mal-amanhado, o
que me permitia de movimento a movimento, dar uma espreitadela lá para dentro.
Ao lado um sujeito que não falou nada durante a reunião,
portanto, ou estava lá arrastado como eu, ou não percebia nada do que se dizia,
como eu, ou não faço ideia do que lá fazia.
Ao lado deste um sujeito que começou logo por dizer que não percebia
nada do assunto, no entanto, para quem não entende nada do assunto, falou que
se fartou e sempre com opinião sobre tudo.
Ao seu lado, um sujeito muito semelhante ao corcunda de Notre
Dame, podia ter sido um rapaz engraçado mas a genética tramou-lhe os planos.
Este cada vez que o anterior dizia que não sabia, este
insinuava logo que sabia, dizendo duas ou três palavras insinuativas mas nunca
finalizava. Era ao estilo “eu sei, mas não vou dizer…” e terminava com um
sorriso de um gozo profundo por não partilhar o conhecimento.
Pelo que percebi, passaram duas horas de reunião, não
serviram para rigorosamente nada, não escrevi sequer uma linha no meu caderno
mas ficou desde logo combinado que iriamos fazer nova reunião.
Isto é uma espécie de noite de copos na casa dos amigos. Não
servem para rigorosamente nada senão para o convívio, mas temos de ter um tema.
Neste caso há tema, não há cerveja…
Continuo a preferir o futebol como tema de convívio!
(mais tarde faço um desenho para substituir este...)

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